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Solis


Não há sobre a terra
amante como o meu:
inteiramente dedicado
estimula-me
aquece-me
envolve-me o corpo todo com centenas de braços
Sei, sempre, onde ele está
Sussurra-me palavras calorosas o dia inteiro

Diurna -  ele se vai e eu me desfaço em água
mergulho a noite profundamente
como se eu não existisse

Ele me chama calmamente com dedos finos
suaves
sensuais
a cada manhã

e sua força faz cada átomo do meu corpo reagir
entra-me pela narina
pela boca
pelos olhos
e me inunda toda de esperma cósmico

exalo poeira estelar
expiro estrelas após o gozo matinal
pairo sobre a cidade ainda sob radiação solar

estou também, dispersa pelo mundo.


100 Mil Poetas e Músicos Por Mudanças


Eu não postei antes divulgando, mas para me redimir posto agora para dizer que foi um SUCESSO! Parabéns a todos os poetas e músicos que se apresentaram neste evento lindo! Flores!

Eduardo Lazaro - Passagens: DIÁRIO DAS QUATRO ESTAÇÕES


Eduardo Lazaro - Passagens: DIÁRIO DAS QUATRO ESTAÇÕES: Uma andorinha só não faz verão. Bem, então eu lhes apresento quatro autoras que, juntas, nos presenteiam com o DIÁRIO DAS QUATRO ESTAÇÕES, ...

Sem palavras para agradecer tamanha doçura com as palavras. A mais bela divulgação do nosso evento, que ocorreu no último dia 27 de agosto. Não deixem de ler os poemas de Eduardo escritos especialmente para as autoras dos Diários das Quatro Estações!

Flores para Eduardo, flores para as autoras @>--

Diário das Estações: lançamento

Nós escrevemos diários!


Ano passado recebi um convite muito especial: escrever um diário para ser publicado. Convite aceito sem pestanejar, e agora faltando alguns passos para o lançamento, eu é que convido os leitores deste blog a não perder o Diário das Estações!

O lançamento será em agosto, mas veja uma prévia com a apresentação das autoras no blog da organizadora do lançamento: Francy's Oliva


Lunna, você sempre me presenteia com palavras ou convites!
Estão todas de parabéns! Flores @>--

O amor em teu peito se petrificou


O amor em teu peito se petrificou
não olha para trás
não se desfaz
mas não pulsa mais

não dizes mais certas palavrinhas
que eram os nossos mimos
não me chegam aos olhos
nada do que vai em teu pensamento

ainda falo de mim
e percebo que não te interessas
pareço um disco arranhado
no toca-discos em que
baixaste o volume

o amor deixou meu peito em carne viva
nossas carnes febris
que ficaram para trás
não se desfaz
e ainda pulsa.

A casa da morte

Do outro lado da rua
Uma casa abandonada
Do outro lado da vida o que haverá?
Morrer não deve ser diferente de fechar os olhos
e abrí-los para um cômodo qualquer abandonado
no qual, nós mesmos
poremos a mobília de sonhos, de amor ou de dor
como nos aprouver.
Minha casa da morte
tem uma estante de livros de poesias
uma “long chaise”
e “Soleil levant” de Monet
no lugar de uma janela.
Uma concha para ouvir o mar
uma velha foto de família
e memórias
que ora choram, ora riem.
A morte é só
mais uma casa abandonada
esperando.


Poema publicado na revista Cultural Novitas nº 3.

Desaguadouro

Estou desamando
em leito seco de rio
fazendo lama.

BLOGAGEM COLETIVA, Mário Gomes


Ação gigantesca

à Ana Maria Dantas

Beijei a boca da noite
e engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a Terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade
voaram para o Além.
Os animais caíram no abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
e fui descansar na primeira nuvem
que passava naquele dia
em que o sol me olhava assustadoramente.
Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
por detrás do Universo.

(1º lugar no festivel Cearense de Poesias.)

* Mario Gomes é um poeta cearense, que infelizmente, hoje vive a perambular pelas ruas de Fortaleza devido à problemas mentais adquiridos durante uma vida de incompreensões e intolerância. Mário Gomes está com 62 anos.

A morte do amor em poucos atos






Acordou, disse "Bom dia"
Não me chamou de "amor"
Tomou o café distraído
Prioridades se interpondo
à minha frente
Fiz-me de parede
para não atrapalhar
e meus olhos eram espelhos
molhados
Disse, por fim, "Adeus"
"não me espere para o jantar"
Pouco amor estava ali
entre os restos do café da manhã
que joguei no lixo.

Clausura

Sou um quarto fechado
com fotografias nas paredes
e espessas cortinas sobre os olhos
macio carpete de sofrimentos
para o andar descalço

Tranquei as portas deste corpo

Posso te ouvir bater
não me abro
Porque quero que me cerques
por todas as janelas e portas
impossíveis

Se conseguires entrar
ilumine os corredores
que tenho percorrido
tentando encontrar
a mim mesma

Deito na cama fria
das entranhas
e não durmo

Tua voz é o som da noite.

Especialmente para o blogue Rosa-dos-Ventos.

Absolutamente só


Meu corpo ao deitar
é uma pedra leve
em lagoa profunda
nunca chega ao
fundo teu abraço
apenas a solidão
de águas me cobre
seu olhar iluminado
atravessa a escuridão
líquida
sem me ver
por dentro

Prêmio Symbelmine


Prêmio concedido pelo gracioso blog AstroSideral de Achernar.

"El PREMIO SYMBELMINE (no me olvides): Fue creado el 27 de Noviembre de 2008 por Maeglin del blog "Patio de los Senescales" al cumplir su primer aniversario en la web. Con él se pretende agradecer a los blogs premiados su trabajo y esfuerzo.
Los requisitos son:
1. Elegir 10 blogs o sitios de Internet que por su calidad, su afinidad o cualquier razón hayan conseguido establecer un vínculo que desees reforzar y premiar con un "no-me-olvides" y enlazarlos en el post escrito.
2. Escribir un post mostrando el premio, citar el nombre del blog o web que te lo regala y notificar a tus elegidos con un comentario.
3. Opcional: Exhibir el Premio en tu blog."

Lusofonia



«Gosto de sentir minha língua roçar a língua de Luís de Camões»
Caetano Veloso


Palavras tuas, ou minhas.
Por naus ou jangadas levadas
Disseminam uma nova pátria
Menos tua menos minha, universal.

Gramática perfeita para sentimentos
Latinos, lusitanos ou africanos.
A bacanal de palavras portuguesas
Atravessa mares com apelo sensual.

Em Agostinho da Silva a lição
A crítica apaixonada de Gilberto Freyre
Sobre a cultura em si una e plural.

Diversos sabores de uma mesma língua
Como correntes marítimas a ligar o mesmo mar
Une-nos a língua à Portugal.

Poema escrito especialmente para a revista Nova Águia.

Encontro com a poesia

Vou adiar meu encontro

Hoje com a poesia

Minha amiga inseparável

O mundo é hostil

Tenho de atender ao seu

Bruxuleante sinal

Para discutir coisas fúteis

E resolver assuntos que

Pra mim, não são importantes

Não demoro, prometo

Embora seja urgente

Quebra-cabeças da vida

Com bilhões de peças

Soltas, espalhadas no ar

Mas não posso desistir

Agora que estou só

Agora que cresci e estou só

À hora do cansaço

Voltarei para o aconchego

Das palavras doces

De meus poetas preferidos.

Mar Amor



Saltei das pedras nas águas de Iracema
Nesse mergulho, amor, teu imenso abraço de mar me envolvia
Gota a gota o oceano vem transportando o teu desejo
Para num beijo marinho eu me banhar
E essa saudade vulcânica cria ilhas onde habitas
E paisagens longínquas que eu quero alcançar
E o que respiras sopra em meu rosto como brisa
Leve carícia que anseio
O cheiro teu que o vento trás
O som do teu riso num ruflar de asas
É a tua pele a fina areia em que eu me deito
São as pontas dos teus dedos que conduzem
As gotas salgadas que escorrem em minha pele
É noite e as luzes de Iracema não me impedem de ver
O céu de estrelas que tu anoiteces sobre mim.

Carnaval de 2006

Lá fora os sons do carnaval
Calam a mais sombria tristeza
Pierrô e Colombina dançam
No salão entre serpentinas

A fantasia está na rua
E salta e brinca e sorri
As bocas se beijam
E bebem muita cerveja

Hoje os brincantes
Só querem te levar
Para o meio da festa
Fantasiado de alegria

E você neste quarto
Fingindo não ouvir
Que a canção toca
O seu coração

Você não se maquila
E nem sorri para o espelho
Nem pega na mão dos mascarados
Para dançar no salão

Não distribui beijos
Aos passantes bêbados
Nem canta o verso
Mais alto que o companheiro

É carnaval e você
Vai dormir pesadelos
Pois na sua avenida
Espectros desfilam

Assombram sua alegria
Que fugiu com Arlequim
E está num bloco qualquer
De um carnaval que não é seu.

Os sete pecados capitais do amor



Gula

O meu olhar
te engole e te bebe
desde tua sombra
até o que respiras

Inveja

Invejam os astros dia a dia
o brilho estelar dos teus olhos
e o sorriso nacarado
que observo sem piscar
provocas os deuses
com o tecido nobre de tua pele morena

Avareza

Não te empresto a um olhar sequer
Estou te acumulando
em memórias
só para mim

Luxúria

tens-me
lasciva e devassa
líquida
a escorrer pelo teu corpo
em forma de língua

Soberba

Têm brilho argênteo
nossas umidades
e os pêlos
luzem mais
que mil sóis

Preguiça

Arrasta-me
para fora da cama
se não me quiseres
Leva-me embora
Mas leva-me nos braços

Ira

Odeio este amor
que me extravasa
rasgando-me a pele
como a um papel.

Selo Blog Aprovado + Os 7 pecados capitais confessados


Recebi este selo da querida Lunna Guedes do blog Acqua, e como condição aqui mais 6 blogues que indico:








Aproveito para postar também o Meme que a Lunna me passou a respeito dos 7 pecados capitais. Dulcíssima, aqui vai o inconfessável! rsrsr

Eis os pecados capitais:

Gula: comer além do necessário, excesso de comida e bebia.


Avareza: apego a bens materiais e dinheiro.


Inveja: desejar atributos, status, posse e habilidades de outra pessoa.


Ira: raiva, ódio, rancor.


Soberba: falta de humildade.


Luxúria: apego aos prazeres carnais.


Preguiça: aversão a qualquer tipo de trabalho ou esforço.

As regras:

- Citar em que situações você se enquadra em cada um dos pecados capitais.


- Publicar suas respostas no blog.


- Passar para 8 blogs.


- Avisar e Linkar os blogs escolhidos.

A confissão:

Gula: Sou gulosa, como com gosto e ainda lambo os dedos... rsrs


Avareza: Não sou apegada a dinheiro de modo algum, não tenho dó, é feito para gastar e não para acumular. (Eu sei que preciso pensar no futuro, mas ninguém precisa ser um tio Patinhas rsrs). Agora, tenho ciúme demais dos meus livros! A ponto de não permitir uma estante na sala para ninguém ficar vendo e pedindo emprestado... rsrs


Inveja: Não sei o que é ter inveja, embora seja natural desejarmos o que achamos bom e bonito, mas sempre vi as coisas dos outros como dos outros. Costumo inventar o que eu quero para mim, gosto de ser original rsrs


Ira: Já senti raiva e guardei certas mágoas durante algum tempo, mas superei. Nesta altura da vida só quero me apegar ao que me faz bem.


Soberba: Pode não ser muito humilde dizer, mas eu sou humilde :)


Luxúria: pecados da carne, hum... sem moderação! mas com quem a gente ama não chega a ser pecado, não é? rsrs


Preguiça: Eu só tenho preguiça para fazer o que não gosto. Não gosto de passar roupa, logo, compro roupas que não precisam passar... e morro de preguiça mental para fazer cálculos de cabeça! sou apaixonada por uma calculadora rsrsrs

O convite:

Repasso para meus amigos Marcos Miorini, Arnaldo Norton, Jhon Abreu, Vilemar Costa, Bibi, Simone Góes, Annabel, Sérgio Franck. Não é obrigatório responder ao convite, mas eu já estou curiosa para ler as respostas rsrsr

Beijinhos a todos @}--

Prêmio Dardos II






Recebi do meu querido colega e amigo, Marcos Miorinni do Blog PorEntreLetras, o selo "Prêmio Dardos":






"o Prémio Dardos reconhece o valor que cada blogueiro emprega ao
transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que em suma
demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece
intacto entre as suas letras, entre as suas palavras. Esses selos foram criados
com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de
demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.



Quem recebe o Prémio Dardos e o aceita deve:



- Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos;



- Linkar o blog pelo qual recebeu;



- Exibir a distinta imagem."





Assim como meu caro amigo, aqui segue a lista dos 15 escolhidos:






  1. Academia dos Poetas Paraenses


  2. Astro Sideral


  3. Conversas Inúteis


  4. Cores em Tons de Cinza


  5. Crónicas da Peste


  6. Bar do Ossian


  7. Passos da Poesia


  8. Cultura Nordestina


  9. Goth Land & Lucifer's Kingdom


  10. Nostalgia Musical


  11. A Vida das Palavras


  12. Veneza de Brasileros


  13. Blog do Poeta do Seridó Ednaldo Luiz


  14. Sons de Sonetos


  15. Da Natureza dos Sonhos


Obrigada, Marcos!


E flores a todos @}--


A praia


Cidade quente e uma nuvem ou outra molha as folhas das árvores

Com suaves respingos que não chegam a ser chuva

A brisa do mar chega já esmorecida, quase imperceptível

As almas em ebulição, perdidas

Rastros de luta interna sob as sombras das árvores

Fortes vagas arrastam o corpo morto, pesadelo

Enquanto crustáceos devoram as sobras de sonhos na areia

A tarde está nublada e ameaça chover contradições

Amores que a tempestade de ontem despedaçou

E as palavras são folhas pisadas no chão

O vento numa carícia maliciosa revela o corpo sob o vestido

Árvore que não dá frutos, não alimenta, desatenta e desalenta

Mãos-raízes cravadas no chão num desejo

De deixar a vida escorrer para desaguar no mar

Gotas de suor na testa

A ventania levou a esperança para outro lugar

A praia ficou vazia de amor e de medo

Chove em Belém





Chove

Chove em Belém

Night and day

Há sempre uma nuvem carregada

Deixando o céu cinzento



A atmosfera perfeita

Para um romance

Amor ensopado

Ouvindo Ella

Entre trovoadas

I Coletânea Scriptus

Prévia do lançamento da I Coletânea Scriptus: a biografia dos autores participantes. Vale a pena conhecer esses novos talentos literários!

Biografia Coletânea Scriptus -

Blog Dorado



Para minha alegria, antes mesmo de embarcar, entre os meus e-mails estava este gracioso selo outorgado por Achernar Vindemiatrix do blogue AstroSideral. Minha primeira postagem do ano será a eleição de mais 15 blogues merecedores deste belo Selo, que nas palavras castellanas de Achernar "se concede a aquellos blogs en cuyas páginas hayaos encontrado algo positivo, útil, beneficioso". Seguindo as regras anteriores, os eleitos devem usar a imagem do selo em seus blogues e indicar mais 15 blogues com respectivos links. A escolha é difícil, mas como tem que ser apenas 15, aqui está minha lista:

Gracias, Achernar!

A praça





O sol da tarde ainda castigava a Praça do Ferreira e alimentava a agitação dos passantes. O entra-e-sai incessante nas lojas, a cantoria dos camelôs e a correria dos consumidores fazia o dia transcorrer rapidamente sob o olhar sonolento dos que passavam o dia inteiro sentados nos bancos da praça, observando. Este grupo de amigos chamavam a praça de escritório e se denominavam poetas.

Mas este dia não foi como os outros, com a agitação costumeira. Depois de uma tarde de conversas e versos improvisados, um baque surdo calou a tarde. Um dos poetas, que circulava entre as pessoas, tombou, morto no meio da praça. Imediatamente, um círculo se formou ao redor do corpo.

- Um poeta morreu! Um poeta morreu! Um verso atravessou-lhe o coração.

Com a chegada da ambulância, os curiosos deram espaço para que o poeta fosse removido e logo a cortina estrelada da noite desceu sobre a cidade. As fachadas das lojas e do cinema iluminaram-se. A vida era a mesma, a praça era a mesma, tudo continuou como se nada tivesse acontecido.


***


Pequena homenagem aos poetas anônimos da Praça do Ferreira, Fortaleza.

Imago

Tem amor que sofre uma metamorfose invertida
Começa imago a voar com grandes asas de desejo
se equilibrando a cada brisa de emoção
desafiando
mas à primeira decepção vira larva
e se arrasta como pode
com o tempo trava-se o silêncio dentro da crisálida
amor sem palavras
até olhar somente para dentro
em fase de ovo.


Participando da nova edição da Coletânea Artesanal - Metamorfoses

Noite





a Noite caminha embriagada e louca
na escuridão
quer um ponto de apoio
não acha
não tem luar
a Noite esfria
chora
chove sobre a cidade
a Noite está só
a Lua negou-lhe companhia
o Sol há muito já se pôs
a Noite está sozinha
ouvindo o som dos bichos
ouvindo buzinas
tem música em algum lugar
longe
a Noite não alcança
mas vê nas casas
as pessoas e seus pesadelos
se enternece
e vaga a procura de abrigo
a Madrugada chega sempre atrasada
quando o bandido já assaltou
quando o casal já se separou
quando a criança jaz morta
e alguém já está doente
ou tentou se matar
anoitece
por sobre os muros

e chove

Sonho

O amor pousou na janela do meu quarto
e me chamou para brincar

sem medo

me joguei atrás dele da janela

do sexto andar


e flutuei sonhando


o vôo virou um mergulho

já não era a cidade
era o fundo mar

e eu tinha cabelos de algas marinhas

nadamos golfinhos

por todo lugar

cansados da travessura

fomos dormir juntinhos
numa concha
.

Abre Aspas "Douglas Dias"




tuas mãos têm a idade do medo
trancadas por dentro da fé
colecionam quinquilharias
limpam a poeira dos quadros
viram as páginas dessa história
envelhecendo de hora em hora
apegadas ao que ficou preso
nas cores dum outro entardecer


são feitas de misericórdia, as tuas mãos
atiram esmolas aos pedintes
acenam esperança aos moribundos
conduzem à luz os desesperados
alimentam pacientemente os enfermos
estancam o fluxo nervoso da dor
mas não sabem afagar os anjos
que escapam do céu ao anoitecer

(és o deus que me vigia
os passos
o bufão que me perdoa
os erros
a mentira que me preserva
a sanidade
o sopro de loucura que me suspende

a vida)
Douglas Dias
Poeta paraense.
Douglas D. pode ser lido em Da natureza dos sonhos, Vomitando Imagens, Deus e outros escombros, Amores Fúnebres, Retraços, Eu, espantalho, Memórias Baldias, Rascunhos em Tons de Brevidade e Silêncio e Destripando Sons.

Conheci a poesia de Douglas Dias ainda em 2005 quando criei meu primeiro blog - Fábrica de Poemas - e entre as minhas idas e voltas com blogs e outras páginas, nunca deixei de visitar os seus blogs porque possuem uma força poética que me encanta pela beleza das imagens, pela precisa escolha das palavras sentidas, além da beleza das ilustrações de suas postagens. Desconheço a biografia deste maravilhoso poeta, por isso, deixo apenas estas breves palavras e esta contribuição para a blogagem coletiva Abre Aspas.

Adeus Fortaleza

Estão agitadas as ondas da Praia do Futuro

Estenderam-se os lençóis azuis sobre o mar

Enquanto a feijoada de domingo cozinha na boca do sol

Areia quente a receber os convivas

E caipirinha de aperitivo

Lagostas, camarões, caranguejos

Queijo coalho

Tudo, tudo preparado

Para a minha despedida.

Sem fronteiras

O toque da tua pele eu anseio
E desejo as carícias de tuas mãos
Colhendo os frutos do desejo em meus seios

Imploro a umidade dos teus lábios doces
E a invasão da tua língua em minha boca
Sou um país aguardando a tua posse

Finca tua bandeira com dentes em minha pele
Explora a perder de vista meus horizontes
Amor sem fronteiras que se revele

Universo Particular



Os olhos fecham-se para o quarto
E todo um universo se insinua dentro da mente
Estrelas transmutam-se enquanto eu sou cadente!

Abstraio-me do calmo ambiente
Vago entre esferas coloridas reluzentes
Há no meu universo mais estrelas que gente!

Caudas de cometa entrelaçadas às pernas
Anéis de Júpiter entre os dentes
O sol tão distante e imponente!

Expande-se esse universo constantemente
Nenhum ser vivente pode visitá-lo como pretende
Há muitos mistérios na minha mente!

Mãos


Pelos caminhos
Solitários do desejo
Vagam minhas mãos
Em busca de carinho
Querem se dar
Duas mãos teimosas
Querendo acariciar
Algo que se mova
Nessa imensa planície
Em que me encontro
A própria cama

Amor-Perfeito II (Reconstrução do poema)




É o sol se derramando

Sobre a história da minha vida
E tudo ilumina, transforma
Em ouro, pedra preciosa
O valor não se estima
Alegria primaveril
Ventos de outono; calor de verão
A chuva do inverno cessou

Durará está estação
minha vida inteira?
Invoco os espíritos das florestas!
Chove uma bênção argêntea
sobre nossas cabeças
E os pés da felicidade esmagam
Nossos frágeis corpos
outrora descontentes
Perene estação de flores
Envolvendo nosso leito
Jardim a florescer amor-perfeito.

Mosaico Vivo

A cola
unindo
anotações vazias

Óculos escuros
para o sol interior
Borracha apagando
a imagem do espelho
– (des) identidade

O guarda-sol defende-me
do olhar de olhos tão claros
Porta-lápis-lábios-cerrados
Cartões de visita
perdidos de mim.

Texto produzido na Oficina "Desinventando a Poesia" com Fabrício Carpinejar na I BIP.

Brillante Weblog



Oferecido gentilmente por Pandora - Blog Resistência Santiago de Leon de Caracas -, a quem agradeço de coração o selo, suas visitas, comentários e carinho.

Agora eu passo em frente para mais uma página que admiro da doce Lunna Guedes:

Acqua

Fim de tarde

O sol se põe

E assim se esparramam os versos

Nos rastros de raios solares

Frágeis

Sobre o jardim

Esse poema ensolarado

Vai iluminar a folha em branco

Sobre a escrivaninha

Vai iluminar o retrato desbotado

Em cima de um criado mudo

Aquecer este quarto frio e

E o silêncio dos dias

Abstrato Ambiente






A ausência é calma

E deixa as coisas intangíveis

O contorno dos móveis

Se desfazem em linhas

E imagens disformes

Decoram o quarto

O toque da colcha

Suave, porém fria

É confortável ficar

Quieto e calado

Mas os olhos não fecham

Não fecham nunca

Para não deixar de existir

Para que a realidade não fuja

Pois ela existe somente

Até onde o olhar apreende

Memórias de sal

Nasci de um mergulho ao contrário

Cresci um peixe fora da água

Por isso os olhos sempre úmidos

Água e sal

Sempre ofegante

Memórias de polvos

Estrelas-do-mar dentro do peito

Corais e cavalos-marinhos

Hoje nado contra a correnteza das ruas

E quando das escamas todas perdidas

No mar no rio na poça de água talvez

O caminho de volta irei encontrar

Solidão

Dói-me a minha solidão
Você tem a sua
Ele tem a dele
Mas eu não posso
Sentir a sua solidão
Nem a solidão de qualquer outro
Só sei que me sinto só
Pequena não, grande
Solidão de ser um gigante
Porque aos meus pés
Ninguém olha para mim

Aos meus pés
ninguém me vê.

Mira

Mira
Como quiédome nerviosa
Delante del teléfono


Mira
Inconstante mi humor
Delante de tu ausencia


Escucha
El sonido intranquilo de mi corazón
Delante de la espera


Escucha
El silencio del aposento
Delante de mi sufrir


Sientes
El amor en mis manos
Delante de la desesperación


Sientes
Que si tu no vienes
Me voy a morir.

Os olhos do meu amado

Os olhos do meu amado
Olharam-me com queixumes
E o brilho mágico do seu olhar

Perdeu-se no meu


Seria uma palavra sentida

Ou uma frase reclamante
O que dizia este olhar

O que calava os lábios seus?

Ah o seu olhar sempre tão reconfortante
Fugiu-me qual beija-flor

Deixando-me sozinha um instante


Os olhos pediam-me suplicantes

Era quase um grito o desespero seu

A reclamar meus lábios de amante.

Noite Urbana

É noite e a cidade está cansada
De homens e mulheres cansados
A urbe impede-os de ver as estrelas

Enquanto o universo é vasto.
Durante a noite, a noite não dorme
E é possível ouvir os gemidos
Os sentimentos mudos
A despeito do alarido.
Na escuridão não se vê a fome
E a fome não deixa dormir
O olhar é um brilho úmido
Na escuridão. Imagem
Tão familiar, de desconhecidos
Como córrego de águas escuras
Acostumados a entorpecer
Sobre a calçada pútrida.
Os pulmões negros
A aspirar a brisa
Carregada de fumaça
quente; a brisa fria.
Fecham-se os olhos tristes
dos velhos apartamentos
A porta-língua não diz
adeus aos companheiros.

No Chão

Costumo jogar as coisas no chão
Parecem mais próximas
Camisas, sapatos, amor e solidão.

Sinto a face contra o chão

Finge-se de morta a vítima
O diário, a caneta, desprezo e paixão.

Vez ou outra eu organizo a cabeça
Limpo a superfície escura
Para que ao sentir o sol o verso apareça.

E deito no chão quieta feito cobra, nua
Para guardar o pensamento-pérola numa concha.

Completamente muda.

Desalento

As cachoeiras
São pulsos cortados da natureza
É o seu desespero
Em movimento


O verso que não cala
É um pulso cortado do poema.

Gotas de Versos

Caiu uma gota de verso no meu pranto

E muitas rimas raras fizeram-me chorar mais

O lençol branco, como uma página em branco

de uma história de amor que não escrevi

palavras deixadas no vidro embaçado da janela

vejo a chuva através da janela

e nas poças d'água a cidade em miniatura

cidade azul, dia azul

olho para o chão, não vejo o céu

não quero ver o céu

a mente está tentando se concentrar numa frase

que eu não escrevi

eu não sei falar de mim

e leio-me em todos os poemas

em todos os livros

que estão empilhados na velha livraria

de lágrima em lágrima o verso flui

recria-se em estado de chuva

chuva fina, chuvisco

a mão estendida para sentir as gotas

melhor deixar molhar o sentimento

que afogar o pensamento

num verso triste...

Escrever é um risco




Escrever é um risco
Arma perigosa a palavra
Quem eu tenho na mira?
Ah, um coração!
Vítima preferida
Nunca erro o primeiro disparo!
Sou perigosa com as palavras
Coleciono-as
para deleite de minhas maldades estilísticas
O que vejo?
uma lágrima...
gosto de ver a vítima sofrer
até a última sílaba
Pobre coração partido
ainda pulsa
mas não lhe devolvo o amor
é meu refém!
aprisiono sentimentos
e lanço-os envenenados
contra toda espécie de leitores
sem dó!

Prêmio Dardos - 2008



Recebi a indicação do Prêmio Dardos do queridíssimo Hélio Jenné do Blog Meu Blues Pra Você:

“Con el Premio Dardos se reconocen los valores que cada blogger muestra cada día en su empeño por transmitir valores culturales, éticos, literarios, personales, etc.., que en suma, demuestran su creatividad através del pensamiento vivo que está y permanece intacto entre sus letras, entre sus palabras rotas.” Pandora
El “Premio Dardos” tiene ciertas reglas:

1. Al aceptarlo se tiene derecho a exhibir la imagen de la prenombrada distinción.
2. Señalar con un enlace el blog del que se ha recibido el galardón.
3. Elegir quince (15) blogs para entregarles el “Premio Dardos” .

Desta forma, indico os seguintes blogs para receberem o "Prêmio Dardos":

Mata Hari e 007 de Pedrita;
Alma de Poesia de Rita Costa;
Lugar de Mim de Maria José Quintela;
Vomitando Imagens de Doulgas Dias;
Amor sem Medo de Anete Joaquim;
Blog de Sérgio Franck;
Via Poese de Vilemar Costa;
Eros-tics de Jhon Abreu;
Poesia Lilaz-Carmim de Dinah Raphaellus;
Poesia de Namibiano Ferreira;
Veneza de Brasileiros de Marcos André C. Lins e Osvaldo Barreto;
Olhos de Folha Minha de Cintia Thomé;
Labirinto do Sol e da Lua de Bruxinhachellot;
Encosta do Mar de Ana; e
Poemargens de Zantonc.

Flores a todos @>--

Chuva Vespertina

O céu beija a terra e deixa sua saliva
sobre as folhas, flores, calçadas.
Seu olhar de sol faz a umidade brilhar
como reflexos dum olhar apaixonado.
Eu dentro desse beijo molhado
aguardo a chuva cessar.

Ponderação

Eu mesma construí os trilhos

Precários, frouxos

Por onde andei

Em busca de novas paisagens

Quantas vezes eu cheguei!

Tantas vezes parti!

E um pouco de minha alma deixei

Nos lugares que percorri

Trouxe comigo cada vez mais bagagem

Suvenires imateriais

De cada viagem

Lembranças, pequenas alegrias

Momentos memoráveis

De sons, cheiros e cores

Nada conquistei

Nem riquezas acumulei

Mas o importante é que encontrei

Não no fim do caminho

Mas na própria andança

O eu que andava perdido

Em mim desde criança

Oh às vezes escrevo

Como uma velha senhora

Sentada na cadeira de balanço

Espiando da varanda um passado

De (des)encantos

Quando na verdade é apenas

O primeiro balanço

Das décadas que vivi

Não foi tudo perfeito

Mais foi o que eu consegui

E se hoje sou mais feliz

Foram os trilhos precários

Frouxos, por onde andei

Que me trouxeram até aqui.

Ri do meu amor

Tu riste do amor que tenho
porque tenho o amor somente
não conheces o meu tesouro
que no cofre dos olhos reluz

Tu riste do amor que tenho
mas não provocas-me mágoa
mais enriqueço com o teu rir
ele é um dos meus maiores bens

Ri mais e mais, amor
de mim, do amor, de nós
teu sorrir são moedas de ouro
para mim

Esta riqueza para além da eternidade
este tesouro que me pertence
por ele busca todos os dias
muita gente!

Sempre Noite

Não estou trancada dentro de mim, amor
A porta está aberta

Posso sair
O coração na mão desprotegido
Algo inseguro
É noite, é sempre noite
Por demais escura
Piso o frio das calçadas
com pés descalços
Só, mas inteira
A mudança de cores
Anuncia o dia
Viro sombra
Deixo-me invadir, pisar

Abro as mãos, voam pássaros.

Coração Camisa de Força


coração camisa de força que se rompe
que não cumpre sua função

que é manter a salvo
os meus sentimentos
a camisa de força se rompe
e vê-se livre as minhas emoções
os delírios de amor
no manicômio do corpo
os sentimentos são loucos
em cada parte manifestam
fixações
manias
perseguições
o coração camisa de força
tenta em vão contê-los
um a um
mas escapam-me
pela janela dos olhos
pulam o muro do peito
e já não consigo prendê-los
e surpreendo-me
completamente apaixonada

Junina

Vestes coloridas, fogos de artifício
Multidão, danças, risos,
Lua cheia, fotografias, famílias,
Comidas, bebidas, brilho.

Sandálias, palmas, crianças,
Maracatu, São João, São Pedro,
Bares, olhares, embriaguez,
Santo Antônio casamenteiro.

Fogueira, pé-de-moleque, casais,
O caminho da roça: a cobra,
é mentira; a chuva, não é não.

Sob o céu de estrelas e bandeirolas
Sento-me e contemplo as vivas cores
De uma saudade que estoura dentro do coração.

Anoitece

talvez eu queira agora
escrever versos sobre a tarde
que se despede em raios solares
talvez sobre o crepúsculo eu queira falar
sobre a noite que chega densa
e tudo cobre com seu negrume
e tudo fica sob o seu peso
de sono
e solidão.

Beija-Flor

O trissar do beija-flor hoje me despertou
Para uma manhã ensolarada – calor
As flores não murcharam em seus vasos
Por causa da infelicidade que hora passo

Mais verdes estão as plantas do jardim
A despeito da falta de cor em mim
E brotam lentamente as sementes
Ao invés do vazio em minha mente

As nuvens que agora passam devagar
Não turvam como as lágrimas o olhar
Sopra em meu rosto o vento do Norte

Voa o beija-flor para outro lugar
Deu-me de repente vontade de voar
Na esperança de mudar a minha sorte.

O Crime Perfeito

Eu estava cobrindo o plantão de outro detetive no hotel Iate Plaza na av. Abolição. Depois de um período sem nada para fazer, no terceiro dia o subgerente procurou-me com urgência para resolver um problema no quarto 906. Subimos os dois pelo elevador e encontramos a porta entreaberta. Uma das camareiras se encontrava no meio do quarto, o rosto lívido a olhar a mancha de sangue que se formava no chão e que vinha abundantemente do guarda-roupa. Sem precisar forçar, abri lentamente a porta e um cadáver já enrijecido desabou de costas sobre mim, ensopado de sangue e, para o meu espanto, antes de constatar mais alguma coisa, outro corpo que estava apoiado no primeiro também surgiu. No que me afastei destes, mais um terceiro corpo saiu de dentro do guarda-roupa tornando a cena ainda mais medonha, pois se tratava de uma senhora com aproximadamente 70 anos.

Ouvindo um baque, voltei-me para trás e vi que a camareira havia desmaiado e o subgerente parecia em estado de choque a olhar para os mortos. Imediatamente, chamei-o pelo nome para que voltasse a si e pedi-lhe que chamasse um médico e, claro, a polícia.

Depois de ter estendido os corpos sobre o chão do quarto, passei a analisá-los em busca de pistas. Os dois rapazes que se encontravam frente a frente dentro do guarda-roupa aparentavam certa diferença de idade, estavam bem vestidos e eram bem apessoados. Examinando o ambiente minuciosamente encontrei um balde de gelo com uma garrafa de espumante ainda fechada e duas taças, o que indica que um dos três mortos não estava convidado. Uma bolsa de verniz preta no chão que, provavelmente pertencia à senhora, continha algum dinheiro, além de objetos pessoais da indumentária feminina. No mais, tudo estava no lugar, aparentemente nada havia sido roubado, nem dinheiro, nem cartões de crédito e nem objetos pessoais de valor. A cama não fora desfeita e nenhum outro objeto fora quebrado, não houve briga entre assassino e vítimas. Todos foram rendidos e entraram ainda vivos dentro do guarda-roupa. A senhora estava de frente, um dos homens de costas para ela e o primeiro a ser encontrado de frente para este.

Em busca de informações sobre os hóspedes junto ao hotel, soube que no quarto do crime estava hospedado Yossi Filho, a vítima que caíra primeiro por cima de mim. Um milionário da indústria de sapatos de couro, 42 anos, filho de judeus, branco, olhos azuis e cabelos lisos, desses que quando muito curtos ficam espetados. Casado e pai de um menino de dois anos. O segundo estava hospedado no numero 910, no outro lado do corredor e chamava-se Alan David Soares. Solteiro, 25 anos, moreno, cabelos escuros e curtos, olhos castanhos, estatura mediana, residente na cidade de Belém do Pará, trabalhava no comércio de roupas femininas. A senhora não estava hospedada no hotel, mas tratava-se de Maria de Lourdes David, avó de Alan.

O médico afirma que os corpos foram mortos há cerca de 3 horas, por volta de 11 ou 11 e meia da manhã. Mortos, cada um, com um tiro na cabeça por uma pistola FN Five Seven, uma arma moderna e eficiente, sendo que o Sr. Yossi recebeu, gratuitamente, mais três tiros nas costas. O fato de não terem sido ouvidos os tiros atesta o uso de um silenciador – trabalho de um assassino profissional.

Ao entrar em contato com a esposa do Sr. Yossi Filho, soubemos que este havia supostamente viajado para São Paulo a negócios. A esposa, que se chamava Sabrina, disse não saber por que seu marido se encontrava hospedado num hotel em Fortaleza e alegava não conhecer as outras vítimas e o quê os aproximava. Mas alguma coisa em sua voz chorosa revelava que ela ponderava antes de responder. O fato de ter um marido rico que fingia sair da cidade para manter um relacionamento amoroso a colocava como suspeita. Ela tinha motivos.

O mais intrigante parecia ser a presença de Alan e sua avó. A polícia seguiu os rastros de Alan nos últimos 6 meses e comparando os dados de uma e de outra vítima, Alan vinha se hospedando com freqüência no mesmo período e nos mesmos hotéis em que o Sr. Yossi Filho. Os pedidos de flores e espumantes para brindar tais encontros, nada casuais, e um bilhetinho de amor dobrado cuidadosamente e guardado na carteira de Alan, certamente contrariando Yossi, conclui-se que eram amantes... Mas o que a avó de Alan estaria fazendo no local do crime? Ela certamente não fora requisitada. Não há telefonemas a ela feitos do hotel ou dos respectivos telefones celulares das outras vítimas.

Pegando o endereço de Alan no registro do hotel, a polícia fez um breve interrogatório em sua residência na Av. Almirante Barroso em Belém. Ele morava com a avó desde que os pais morreram num acidente de ônibus viajando para Fortaleza quando Alan tinha apenas 5 anos. Sua avó manteve os negócios da família e Alan, quando atingiu maior idade passou a vir a Fortaleza para comprar a mercadoria. Nessas viagens conheceu Yossi, não se sabe bem quando, mas tornaram-se amantes.

Os vizinhos de Alan David não sabiam que a senhora Maria de Lourdes havia viajado, ela provavelmente decidira seguir o neto, desconfiada de alguma atitude ilícita, sem contar a ninguém.

Tudo indicava que a resolução do caso deveria estar nos rastros de Sabrina Yossi, por isso segui seus passos desde o enterro para analisar seu comportamento. Impecavelmente vestida a viúva mantinha a cabeça inclinada nos ombros de uma amiga e de vez enquando trocava palavras e chorava abraçada ao filho, Danilo. Sem nunca tirar os óculos escuros. Seu comportamento manteve-se previsível durante todo o enterro. A esposa de Yossi era bonita, formada em arquitetura, mas nunca exerceu a profissão, sempre viajava para o exterior para gastar o dinheiro do marido. Durante o processo de investigação mostrou-se muito solícita e afirmou não fazer idéia das atividades obscuras do marido, muito menos de sua bissexualidade. No seu duplo sofrimento de mulher enganada, desempenhava muito bem o papel de vítima.

Após o enterro, estacionei o carro perto da mansão e me aproximei para observar o movimento na residência de Yossi. Embora o muro fosse protegido de invasores por uma cerca elétrica, as grades decoradas permitiam visualizar bem o jardim e parte da casa. Poucas pessoas apareceram de visita para prestar condolências, nenhuma suspeita. À noite, Orlando,o motorista, demonstrou uma atitude estranha. Uma das janelas que eu conseguia observar parecia ser de um escritório e pela movimentação da dona da casa e do motorista, eles pareciam estar discutindo. Após a discussão Orlando saiu no carro da família Yossi cantando pneus.

Fui no seu encalço até av Borges de Melo, ele estacionou o carro frente a uma casa humilde em uma rua pouco movimentada próxima a ferrovia. Desceu do carro aborrecido e, batendo a porta, chamou alguém que estava no interior de uma casa que aparentava ter somente um cômodo e talvez um banheiro. Um senhor de idade apareceu na porta e ambos entraram, mas o motorista não permaneceu mais que vinte minutos. Quando ele foi embora eu desci do carro para investigar de quem se tratava. Na casinha morava o pai do motorista, Sr. José da Silva. Ele tinha mais uma filha, que não morava com ele e segundo a vizinha se dera bem na vida e sumiu do bairro, a filha se chamava Sabrina!

Conjeturando o qual devia ter sido o plano de Sabrina Yossi e seu irmão, retornei à residência dela. Juntando as peças do quebra-cabeça, Sabrina e seu irmão Orlando planejaram o assassinato de Yossi Filho para herdar a fortuna do milionário, mas nos seus planos provavelmente a senhora Maria de Lourdes apareceu por acaso. Para elucidar os detalhes que me escapavam apresentei-me sem delongas e pressionei os irmãos assassinos afirmando ter provas concretas do crime que cometeram.

Embora ambos se mostrassem desesperados diante das acusações, afirmaram inocência. Segundo Sabrina, Yossi conhecia sua origem humilde e ao apaixonar-se por ela tirou-a da pobreza e ajudava o irmão e o pai de maneira discreta, pois não queria que seu círculo de amizade descobrisse o passado pobre de Sabrina. Ela realmente não sabia que o marido tinha um relacionamento homossexual, mas imaginava que fosse traída, pois ele viajava muito e a traição não seria de se espantar. A discussão dos dois devia-se a que o irmão já não achava necessário manter o pai na mesma casinha pobre depois que Yossi morreu. Por mais que eu quisesse ter solucionado o caso neste momento, os olhos deles mostravam que diziam a verdade.

Voltei para o carro sentindo-me completamente sem chão. Depois de rodar um pouco pela cidade tentando organizar os últimos acontecimentos na minha cabeça, entrei no Café La Habanera perto a praia de Iracema e peguei o Diário do Nordeste para ler. Na coluna social uma foto exibia o empresário do ano: Ildebrando Fonseca, o único concorrente de Yossi Filho na indústria de sapatos de couro no Ceará. As investigações sobre o caso Yossi recomeçaram.

O Mal do Amor

A natureza está melancólica
Chove lágrimas constantemente
Do que tens saudade?
Quem está te magoando?
Que feridas trazes que não cicatrizam?
Se a tua dor, verde vida, for de amor,
Então será uma ferida aberta para sempre
Pois para a mágoa de amor a curandeira não tem remédio
E o amor, nem Matinta Pereira desafia
Ou será que são as minhas próprias lágrimas
As minhas próprias feridas,
As minhas doloridas mágoas
Que vejo nas águas do igarapé refletidas?

Uma concha

Uma concha sou
Não quero sair nem conversar
Um silêncio de fundo de mar me envolve
Como um mergulho noutro mundo
Imensa sepultura de paredes verdes
De volta ao ventre
Líquida solidão
Calma tristeza levada pelas correntes
Imensidão de lágrimas de amor
Meu interior formado de salgados sofrimentos
Submersa estou
Diluída

Onde estás que não bebes a minha dor?

Sobras e Sonhos

Cada um de nós
deixou um pouco de si
com o outro
Sobras e sonhos
Iguais e estranhos
Vários, mas poucos
não somos suficientes
sequer para nós mesmos
Aí perco a fala
e tu dizes outras coisas
Quando tudo que
queremos
é unir nossas sobras
num sonho inteiro
pleno, quem sabe
se soubermos amar.

Resistir ou não à tentação

Eu já tomei a decisão: eu vou. Preparei-me pacientemente para este momento. Até para o momento seguinte. Eu vou! Arrumei-me de forma atraente e sensual, vestido preto, salto, batom vermelho e olhos escuros. Olhos de gata no cio. O amor eu guardei carinhosamente na geladeira e só me fará arder novamente quando eu o quiser descongelar. Estou ansiosa, é claro, mas é uma ansiedade que está a meu favor porque me faz sentir mais bela na tarde nublada, o peito arfando de desejo. A minha cabeça tenta imaginar diálogos, carícias, ações. Espero não criar muitas expectativas, mas é bom procurar saber mais ou menos o que se vai dizer e determinar com antecedência o que se espera de um relacionamento como este, ao menos, para si mesmo.


Conhecemo-nos inesperadamente numa festa de família. Evitei o quanto pude cruzar o meu quase ingênuo olhar com o experiente olhar dele, mas a beleza é como um ímã para os olhos de uma mulher solitária, bem, solitária não, mas eu, com trinta anos completos ainda estava sem namorado. E quando Augusto me cumprimentou, pronto, veio a vertigem e de alguma forma eu sabia que o número do meu telefone estaria registrado no celular dele até o final da noite...


No segundo encontro, desta vez no churrasco de aniversário de minha mãe, ele não havia ainda me ligado, porém neste dia fomos recompensados pelo fato de a esposa dele não estar presente, então dançamos, rimos e nos beijamos rapidamente, escondidos por trás das costas largas de Lúcio, meu primo que tem nada menos que 140 quilos! Depois deste dia o meu celular passou a tocar com regularidade mostrando um nome falso no visor... Mas eu ponderei. Ele disse que eu tinha todo o direito de pensar e que a decisão era minha, contudo também disse que eu o faria o homem mais feliz do mundo se dissesse sim... Será que eu estava mesmo com aquela bola toda? Olhei-me no espelho muitas vezes à procura do que ele viu em mim e encontrei uma boca carnuda e rósea, uma pele levemente bronzeada, uma barriguinha saliente precisando ser malhada, os cabelos longos precisando de uma hidratação para não parecer miojo... Ainda assim a boca suplicava beijos.


Cinco longos meses até eu resolver encarar a situação, pois cinco meses depois de nos conhecermos continuo sem namorado e a boca continua suplicando beijos. É claro que Augusto achou dia e hora apropriados no mesmo instante, não desistiu, não recuou nem um centímetro de interesse pelo tempo que perdemos, pelo contrário, estava ainda mais ansioso. Ai, meu Deus, onde estou me metendo? Sem esperar pela resposta divina, posto que quem cala consente, lá vou eu! Não sem antes me convencer que este encontro pode ser o único e que não vou derramar nenhuma lágrima, nem me lamentar e nem me arrepender, afinal, posso não ter uma segunda chance se resistir a uma tentação como esta!


Olho para a estante e vejo O Amante de Marguerite Duras, e penso que esta pode ser a oportunidade para um novo relacionamento. Mas dessa vez sem amor, pois o amor está guardado na geladeira.


O que será que ele dirá? Que galanteios? Pergunto eu. Fico imaginando o seu olhar sobre o meu corpo delineado no vestido, no decote e os dedos deslizando suaves, porém pretensiosamente em minhas costas. Nos últimos encontros os beijos foram nervosos, culpados, embora não conseguissem mais disfarçar um grande desejo sensual que já existia. No relógio de parede vejo que está quase na hora e suspiro profundamente.


Lá fora a tarde nublada desliza em asas de sanhaços.

Insônia



O Pior que a solidão

pode fazer por mim

É a madrugada.


O rio corre

O rio corre por entre enseadas
Cor de esmeralda oliva ele corre
A mata cerrada esconde por ali
Almas homens medos sonhos
O rio sobe maré mansa
A água oliva encobre solidão
De raízes aquáticas
A garça é quase um anjo
De branco sobre a lama escura
Sua graça não revela sua fome
E os peixes não se dão conta
Do pequeno espetáculo

De repente uma cortina de chuva
Grossa e prateada impede-nos
De ver a paisagem e o barco
Pequeno sacode com a ventania
Um deus resolveu regar corações
Cabeças membros sentimentos
É a estação-Era das secas para o homem
Ele pesca e não come
Ele planta e não come
Ele vende e não come
A cortina-chuva atravessa toda a região
E vai molhar outros sofrimentos

Ponte sou entre o passado e o presente




Ponte sou entre o passado e o presente

Fantasmas me habitam
Transitam eles a assombrar o futuro
E eu não quero mais ver as velhas casas
Nem as velhas ruas que um dia
De cabeça baixa eu percorri
Nem quero tropeçar as mesmas pedras do caminho
Não quero mais os cumprimentos sem sentimento
Não mais
Varre o vento as folhas e os papéis amassados
Talvez cartas, más notícias pelo chão
Não quero todo esse passado no meu caminho
Deixe-me talvez uma fotografia
De algum momento em que fui feliz
Do momento mais feliz

Ponte sou entre o passado e o presente
Quem por mim passou deixou pegadas
Leves demais
Para o meu presente ninguém atravessou.