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História fragmentada do amor de uma bailarina

A DANÇA

Conhecemo-nos numa festa de amigos, eu dançarina dei um show à parte; ele, arquiteto atarefado, deslumbrou-se e não perdeu mais de vista o meu olhar.

SERIA O AMOR
Ele me levou para conhecer os edifícios, praças e jardins que projetou. Eu o levei para me ver dançar. Ficamos fascinados um pelo outro: eu admirei a sua inteligência; ele beijava-me os pés diante da minha beleza.

O SEXO
Duvidas que eu seja capaz de compor versos sobre o nosso ato de amor? Que posso descrever com precisão quando a pele se arrepia ao toque dos lábios? Lábios, língua, dentes a percorrer a pele da coxa, dos seios, do ventre? A língua invadindo a boca num beijo voraz e indecente que é já um ensaio da cópula. Não preciso sequer fechar os olhos para sentir tuas mãos sequiosas comprimindo-me contra si como seu eu fosse capaz de fugir, deixando-me a pele vermelha a arder.

ÉS LINDO
Como és lindo, meu amor! Tens um ar de inocência que eu mesma já perdi. Vamos encontrar um lugar para ti no mundo e será perto de mim.

AMAMO-NOS TANTO
Amamo-nos tanto que às vezes achamos que não merecemos. Quanto menos merecemos, mais precisamos deste amor.

AS LACUNAS
As frases ditas mostram lacunas, em cada lacuna milhares de frases não ditas. O que preciso fazer para entenderes o que a frase “Eu te amo” carrega em imensidão? O que eu não consigo perceber quando me dizes?

AMAR-ME
Amar-me. Amar todos os dias de uma vida? Desejar-me. Desejar-me o corpo débil, os pêlos sempre arrepiados? Aceitar-me. Aceitar o choro silencioso da minha constante falta de alegria e as gargalhadas espalhafatosas de momentos ébrios que me fazem parecer ainda mais triste?

CAMPOS DE ANGÚSTIA
Tantos caminhos na vida mostram recantos de pequenas alegrias, mas só vês os campos vastos da angústia. Nesse campo me perco.

MAIS
Eu queria que tu me amasses mais. Amasse mais do que tudo, no entanto...

PAPÉIS INVERTIDOS
Ligava, ligava para mim exaustivamente. Agora eu ligo e espero as ligações, aflita. Como num passo de dança, ele segue atrás de mim e de súbito viramos a cabeça, depois o corpo e agora eu sigo atrás dele. Toca o telefone uma vez e pára. Seguro o aparelho sem tirá-lo do gancho, numa atitude impensada de segurar-lhe a mão do outro lado. Passam os segundos e nada. Não volta a tocar. Desistiu. Não consegue completar a ligação? Recebeu alguma mensagem gravada da empresa telefônica? Meu telefone não está desligado, nem fora do gancho, e seu interruptor está corretamente na tomada. Verifico tudo. Tiro do gancho: dando sinal, recoloco rapidamente para não dar sinal de ocupado. Ele costumava ligar para mim até sete vezes seguidas até conseguir falar comigo. Hoje, neste momento houve apenas um toque. A luz do aparelho tremeluziu por menos de um segundo e parou.

CHEGUEI NÃO ESTAVAS
Cheguei, não estavas. Meus olhos percorrem num instante o ambiente familiar, que num segundo, tornara-se alheio. Dei-te as chaves para me habitares, mas aqui dentro não te encontrei. Tiveste medo de entrar? Sou imenso casarão inabitável. Rezo e fantasmas continuam a assombrar-me. Pisaste meu chão com tanto cuidado que não percebi que sua reação devia-se ao fato de te sentir desconfortável, pouco à vontade, pouco acolhido talvez.Eu não pretendia te devorar, nem te prender. Sequer sou um enigma, embora teus olhos sempre me olhem como quem quer me decifrar.

UMA PERGUNTA
Não queres mais meu amor?Então eu fico com ele. Fico eu e o meu amor por ti. E vou mimá-lo como o tenho mimado a ti. Ainda assim, só eu e o meu amor por ti, sou capaz de ser feliz e vou morrer com este amor. Amando muito. Amando verdadeiramente até o fim dos tempos. Meu Amor, Meu Amor, Meu Amor.

SOMBRA
Noite após noite a mesma busca por entrelaçar os dedos antes de você tentar escapar.A noite é ainda mais escura no meu interior. Não há um só raio de sol que me aqueça se tu não estás.E o que procuro noutra boca? A tua boca. E noutros braços, o teu calor.As mãos, sempre as mãos, desenham imagens do meu delírio no ar.

DESEJOS
Submersa em desvarios amorosos, deito-me, abro as pernas e minhas mãos são as tuas mãos. O corpo pesa, encrespa-se e depois fica leve e é só o bater do meu coração – que é o teu – tudo o que pulsa dentro deste quarto.

LEMBRANÇAS
Lembranças são fantasmas de boca aberta ameaçando nos devorar.

FAZENDO UMA COISA QUE NÃO SEI
Vou fazer alguma coisa que não sei para me auto-desafiar. Ou confirmar a frustração, pois não têm sido fáceis tais resoluções. É sempre difícil tentar facilitar as coisas. A dor de uma cesariana vem depois do parto. Mas vou procurar ser feliz também.

OFÉLIA AFOGADA
Hoje estou sentindo-me uma Ofélia: um corpo boiando, flores nas mãos, os cabelos espalhados na água...Inércia, impotência, inaptidão e loucura. As pálpebras caem, querem estar mortas. Desejam o sono, por isso as lágrimas. Estou incomodada como se estivesse dentro de uma caixa de sapatos pequena demais para mim. As mãos em concha no rosto, pouco ar, olhos fechados... O peito vai explodir... Não, não! Estou dentro da água, bóio, respiro o ar fresco e o sol me queima a pele. Leva-me o rio da vida pouco a pouco para longe de mim.

REENCONTRO I
Ele estava na primeira mesa do lado esquerdo do palco. Tomava um aperitivo enquanto esperava ser trazido o jantar. O que ele pediu eu não sei. Tremi ao vê-lo ali aguardando o jantar. Voltei para o camarim apressada, pensava no que usar. Eu não me vestiria para me apresentar, eu me vestiria para ele.O restaurante estava cheio embora eu não fosse famosa, a música da moda atraía o público. O outro dançarino estava tranqüilo e sorriu para mim ao cruzar comigo no corredor. Revirei todo o guarda-roupa: o que usar? Ele gosta da cor azul, eu sei que gosta. Um vestido azul, leve, cor do céu... e as sandálias? Sandálias altas, não muito altas para eu não ficar mais alta do que ele, sandálias azuis.Chega o momento de entrar: o bailarino passa o braço pela minha cintura e dançamos como que deslizando por todo o palco. É uma canção que fala da perda do amor. Eu o vi entretido com alguém que estava em sua mesa, saboreando o seu jantar e seus olhos não cruzaram os meus nem por um instante – em nenhum momento flagrei seus olhos em mim.

REENCONTRO II
Voltei para o camarim para trocar de roupa para mais uma apresentação. Não me desesperei, mas escolhi um vestido mais ousado, azul esvoaçante, que deixaria minhas pernas à mostra em alguns momentos da dança. Ele se deixaria seduzir? Mais uma dança, mais sensual e sempre que estive em frente à mesa dele eu rebolei, rebolei, rebolei...Seu olhar queimou todo o meu corpo; eu me sentia mais lânguida, entregue. Quando seus olhos cruzaram o meu, vi a confusão neles: no primeiro momento ele não me notara porque não sabia que eu me apresentaria ali; no segundo momento, identificou-me, seu olhar não desgrudou mais de cada passo meu.

AMOR DESAMOR AMOR
Ele me amou, desamou e agora volta a amar. Será desta vez o amor águaque ainda não consigo conter nas mãos? Foi tudo tão rápido, mas seu desamor foi como uma experiência com a morte: quando alguém nos deixa de amar é como se cometesse suicídio em nossa frente afastando-nos definitivamente da possibilidade de tê-lo. É quando o amor assombra.

Um comentário:

franck disse...

Um dos textos mais bonitos e cativantes que já li na minha vida...